Sábado, 31 de Julho de 2010
 Pesquise
Bem-vindo - Anuário Análise Advocacia
Cadastre-se | Log-in | Fale Conosco | Página principal da Editora
 
Análise Advocacia
 
Reportagem


 
O que vale mais no currículo
 
Todo profissional já sabe que é importante mergulhar nos estudos e se manter atualizado para prosperar na carreira, em uma sociedade de advogados ou no departamento jurídico de uma grande empresa. ANÁLISE ADVOCACIA consultou 22 dos maiores escritórios do Brasil a fim de descobrir quais são os cursos mais valorizados, o que as firmas realmente esperam ver no currículo de um advogado e que tipo de conhecimento é desejado em cada etapa da carreira. Os profissionais consultados estão entre alguns dos principais recrutadores de talentos jurídicos, uma boa razão para ouvir o que eles têm a dizer. O nome dos entrevistados está relacionado no final desta reportagem.

Os quadros que ilustram esta reportagem indicam os nomes de instituições de ensino no Brasil e no exterior. As listas foram montadas com base na indicação dos entrevistados, extraídas de relatórios oficiais do governo e no ranking da publicação americana US News (ranking de LL.M. dos Estados Unidos). A reportagem também indica uma “receita” de estudo continuado da faculdade até o posto mais alto em uma firma de advogados. Também foi construída com base nas sugestões dos entrevistados.
 
Um setor em expansão – As respostas confirmam que um bom currículo acadêmico é fundamental na avaliação dos profissionais mais experientes. Em direito, é senso comum dizer que o conhecimento é o principal caminho para progredir na carreira e que a educação continuada é uma exigência, mesmo para quem já ocupa a posição de sócio em um grande escritório. A cada passo, o advogado precisa ampliar seu repertório teórico. Além do direito, é preciso dominar áreas como economia, finanças. Em uma outra etapa, gestão de pessoas, liderança e negociação passam a ser habilidades requeridas. Também ficou claro que a especialização é uma tendência irreversível nesse mercado. Ou seja, ao mesmo tempo em que se precisa ser multidisciplinar, o profissional precisa aprofundar bastante seus conhecimentos em uma área específica.
 
Uma das revelações que mais chamam a atenção no levantamento é a valorização dos cursos de mestrados e doutorados acadêmicos (stricto sensu) pelos grandes escritórios. Outro dado, diretamente relacionado ao primeiro, é a multiplicação de brasileiros com LL.M. (Master of Laws) nos Estados Unidos. De acordo com alguns profissionais consultados ter LL.M. é importante, mas não tem o peso que tinha há alguns anos. Verificou-se, também, que há uma demanda enorme por bons cursos na área. O setor de ensino vive uma fase de grande expansão nessa área. Apenas no ano passado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), recebeu 53 novos pedidos de reconhecimento de cursos de mestrado e doutorado em direito. O número é quase igual ao total de cursos reconhecidos pela coordenação na área (64). E com um detalhe: dos 64 cursos reconhecidos, apenas três recebem um atestado de excelência – USP, UFPR e UFSC, e 12 têm alto desempenho.
 
Confira também
LL.M. no Brasil - Até dez anos atrás, mestrados acadêmicos (stricto sensu), eram as únicas opções no Brasil. E como não ofereciam o que o mercado necessitava, quem atuava na área de negócios tinha que buscar um curso no exterior, mais especificamente nos Estados Unidos. Agora, há boas opções por aqui, e o crescimento no número de cursos, e de alunos, é impressionante. O primeiro LL.M. do Ibmec-SP, criado em 1999, multiplicou-se em quatro cursos – mercado financeiro, societário, tributário e contratos, cada um com 45 vagas. No processo seletivo mais recente, as 45 vagas no direito societário foram disputadas por mais de mil candidatos.
 
LL.M. no Brasil - Até dez anos atrás, mestrados acadêmicos (stricto sensu), eram as únicas opções no Brasil. E como não ofereciam o que o mercado necessitava, quem atuava na área de negócios tinha que buscar um curso no exterior, mais especificamente nos Estados Unidos. Agora, há boas opções por aqui, e o crescimento no número de cursos, e de alunos, é impressionante. O primeiro LL.M. do Ibmec-SP, criado em 1999, multiplicou-se em quatro cursos – mercado financeiro, societário, tributário e contratos, cada um com 45 vagas. No processo seletivo mais recente, as 45 vagas no direito societário foram disputadas por mais de mil candidatos.
 
“O mercado jurídico ficou muito mais sofisticado e isso aumentou a demanda por excelência acadêmica”, diz o coordenador do Centro de Estudos em Direito do Ibmec-SP, Jairo Saddi, doutor em Direito Econômico pela USP com pós-doutorado em Oxford. A maioria dos alunos trabalha em departamentos jurídicos de bancos ou em sociedades de advogados – 80% contam com subsídio. Segundo Jairo, o investimento de tempo e dinheiro tem retorno quase certo. “Após o curso, dois terços dos nossos alunos são promovidos ou mudam para um cargo melhor em outra empresa.” Um quinto curso, na área ambiental, é o próximo passo.
 
Dupla graduação - Fundada há apenas três anos, a faculdade de Direito GV rapidamente se transformou em referência. O departamento conhecido como GVlaw oferece atualmente mais de 50 cursos de especialização nas mais diversas áreas. Também explora o nicho dos cursos customizados (in company), com atuação em departamentos jurídicos de bancos como Itaú e Santander, e em escritórios como Pinheiro Neto e Machado, Meyer, Sendacz Opice. Neste ano, a GV iniciou seu primeiro mestrado (stricto sensu), voltado para áreas como governança, reforma do estado e desenvolvimento econômico e social.
 
Outra iniciativa recente é a dupla graduação, que permite a alguns alunos selecionados obterem os diplomas em administração e direito em sete anos (o normal são cinco anos em cada curso). “Para dialogar com os clientes, o advogado tem de conhecer a linguagem do mundo corporativo, saber ler um balanço”, diz Oscar Vilhena, mestre em Columbia, pós-doutorado em Oxford, e coordenador do Mestrado da Direito GV. “Mas para estar entre os melhores, é preciso mais: direito internacional, gestão, estratégia. E, principalmente, estudar profundamente a teoria jurídica.” Daí a importância da atualização contínua. Mesmo com 30 anos de carreira, mestrado e doutorado, o profissional pode enriquecer seu currículo em áreas específicas como direito regulatório, propriedade intelectual, arbitragem.
 
O lugar do mestrados e doutorados acadêmicos - Alguns grandes escritórios passaram a valorizar mais os cursos acadêmicos de mestrado e doutorado (stricto sensu). Em alguns deles, mestrados e doutorados em universidades brasileiras de ponta valem tanto (ou mais) quanto um LL.M. nos Estados Unidos na avaliação de um candidato ou na hora de uma promoção. Essa mudança decorre de dois fatores. Em primeiro lugar, os escritórios reconhecem o esforço do profissional que se aprofunda nos fundamentos do direito e produz uma tese, o que implica fazer pesquisa e ser obrigado a inovar. O segundo fator é a percepção de que, só quem domina o repertório da dogmática jurídica é capaz de encontrar soluções para casos mais complexos e novos problemas.
 
É claro que um LL.M. em universidade de primeira linha nos Estados Unidos continua a ser uma bela medalha no peito. A novidade é que ele está deixando de ser uma vantagem competitiva para ser quase uma exigência para quem atua na área de negócios. Explica Ary Oswaldo Mattos Filho, sócio de uma das principais bancas do Brasil e diretor da Direito GV. “Quando fiz o meu em Harvard, em 1968, me sentia como um marciano. Ninguém sabia o que era isso no Brasil. Agora muita gente tem, então já não faz tanta diferença.” Estima-se que existam atualmente 200 brasileiros cursando LL.M. nos Estados Unidos. É muita gente, o que significa uma concorrência cada vez maior.
 
“Na área empresarial, o Master in Laws em uma universidade nos Estados Unidos é quase uma obrigação. Quem não tem, precisa explicar por quê”, diz Alexandre Bertoldi, sócio administrador do Pinheiro Neto. “Ao mesmo tempo, nos últimos anos, os mestrados acadêmicos passaram a ser mais valorizados. Hoje, aqui no escritório, um mestrado stricto sensu na USP ou na PUC tem tanto peso quanto um LL.M. nos Estados Unidos.” Note-se que a valorização dos cursos stricto sensu ainda é um fenômeno recente. Na maior parte dos escritórios, ainda é visto como de pouca utilidade prática.
 
“Os escritórios não valorizam o mestrado e o doutorado. Você investe muito tempo e dedicação e tem pouco retorno”, diz Eduardo Borges, sócio do Ulhôa, Canto. “Já o LL.M. traz um ganho imediato.” Paradoxalmente, depois de um curso na Universidade de Leiden, na Holanda, um dos mais bem conceituados na área tributária, Borges fez um mestrado. Na USP. No mercado jurídico atual, para se diferenciar de verdade, dizem os escritórios, é preciso um conjunto de habilidades e competências maior: um mestrado acadêmico, estágio em escritório no exterior, outra graduação, uma boa especialização em administração de empresas, economia ou ciências contábeis. Cursos em novas áreas, como tecnologia, entretenimento, ambiental.
 
Formação continuada - Com diferentes nomes, todas as grandes bancas possuem comissões que cuidam da formação contínua dos profissionais. Em um dos escritórios de maior sucesso no país, há uma pontuação para cada tipo de curso no programa de desenvolvimento de carreira. Doutorado ou mestrado (stricto sensu) aparecem em primeiro lugar na escala de valores. Aqui, novamente, premia-se o esforço e a vontade de enfrentar novos desafios de quem se arrisca a fazer um curso desses. Programas de LL.M. vêm em segundo lugar e, em terceiro, especializações. Cursos no Brasil pesam um pouco menos. Vale lembrar que, para a legislação brasileira, o LL.M. nos Estados Unidos não passa de uma especialização, muito embora lá o título seja de mestre (Master of Laws). Mas o que importa é que no mundo real dos escritórios e empresas é uma credencial bastante valorizada e, normalmente, é acompanhada por uma promoção.
 
Além do inglês, obrigatório, o domínio de uma segunda língua é desejado. Com o Mercosul e o grande volume de investimentos espanhóis no Brasil, o idioma é o mais citado pelos escritórios. Alemão, francês e italiano ainda são apreciados. Afinal, conhecimento nunca é demais. Mas estão em baixa. Escolher diante de tanta oferta e diversidade é um desafio. Aqui, vale a velha máxima: escolha algo de que você goste e procure o curso reconhecido como o melhor na área. E tenha foco, porque a especialização é uma tendência que veio definitivamente para ficar.
 
“É preciso se informar bem. Yale e Stanford, por exemplo, têm um perfil mais acadêmico. Nova York, Columbia e Pensilvânia são mais voltados para o lado profissional”, diz Bárbara Rosemberg, sócia do Barbo a Müssnich & Aragão e, aos 33 anos, um dos principais nomes do mercado em direito da concorrência. No currículo, ela ostenta um LL.M. pela Universidade de Berkeley, na Califórnia, e um doutorado em Direito Econômico Financeiro na USP. Acrescente-se a isso uma experiência internacional no Cleary, Gottlieb, Steen & Hamilton, em Nova York, e uma passagem pela Secretaria de Direito Econômico (SDE), para se ter uma profissional realmente diferenciada. “Gosto de estudar. E nunca limitei esforços para aprimorar minha formação.” Hoje, ela se atualiza dando aulas na GV Direito e participando de seminários internacionais em sua área de atuação.
 
Tão importante quanto estudar é saber a hora certa de cada curso. Um erro bastante comum hoje em dia é fazer o LL.M. logo após a graduação, antes de possuir alguma experiência profissional. “É jogar dinheiro fora”, diz Hércules Celescueki, sócio do Trench, Rossi, Watanabe, mestre pela Universidade de Illinois. “É importante não perder o foco na prática. O mais aconselhável é trabalhar pelo menos dois anos num grande escritório, eleger uma área de atuação e aí, sim, partir para o curso no exterior. E tentar combinar o curso com uma experiência em um grande escritório norte-americano. Isso vale tanto quanto o LL.M.”
 
Foco - Mas o principal conselho dos profissionais ouvidos por Análise é não desperdiçar dinheiro, tempo e energia com cursos que não vão acrescentar muito. “O ideal é manter o foco na área em que se pretende atuar até atingir um nível de especialização suficiente”, diz Eloah Elisa Guiblin Teixeira, advogada e integrante do Comitê de Qualidade Profissional do Machado, Meyer (MMSO). E, vale repetir: especializações, mestrados, doutorados, não importa. Procure uma instituição reconhecidamente de primeira linha e se informe bastante antes, para ter realmente certeza de que é o que você procura.
 

 
Os seguintes profissionais e escritórios foram entrevistados para a produção desta reportagem: Alexandre Bertoldi (Pinheiro Neto Advogados), Ary Oswaldo Mattos Filho (Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga); Bárbara Rosenberg (Barbosa, Müssnich & Aragão); Caio Mário da Silva Pereira Neto (Leoni Siqueira Advogados); Claudia Prado (Trench, Rossi e Watanabe); Durval de Noronha Goyos (Noronha Advogados); Eduardo Borges (Ulhôa Canto, Rezende e Guerra Advogados); Eloah Elisa Guiblin Teixeira (Machado, Meyer, Sendacz e Opice); Flávio Meyer (Machado, Meyer, Sendacz e Opice); Hércules Celescueki (Trench, Rossi e Watanabe); Ilídio Benites de Oliveira Alves (Oliveira Alves Advogados); Jairo Saddi (Ibmec-SP); João Paulo Fagundes (Rayes, Fagundes e Oliveira Ramos Advogados); José Luiz Homem de Mello (Pinheiro Neto Advogados); Leandro Pereira (GV Law); Luciana Gross Cunha (GVLaw), Marielza Wickert (Departamento Jurídico do Santander), Oscar Vilhena (GVLaw); Suely Fernandes (Trench, Rossi e Watanabe); Advocacia Celso Botelho de Moraes; Barbosa, Müssnich & Aragão, Demarest e Almeida Advogados; Diamantino Advogados; Fialdini, Guillon Advogados; Gouveia, Vieira; Leite Tosto e Barros; Machado, Meyer, Sendacz e Opice; Martinelli Advocacia Empresarial; Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga; Mesquita Pereira, Marcelino, Almeida, Esteves Advogados; Noronha Advogados; Pinheiro Neto Advogados; Rayes, Fagundes e Oliveira Ramos Advogados; Rechulski e Ferraro; Souza, Cescon Avedissian, Barrieu e Flesch; Teixeira, Martins & Advogados; TozziniFreire Advogados; Trench, Rossi e Watanabe; Ulhôa Canto, Rezende e Guerra Advogados; Wald e Associados Advogados.
Rua Major Quedinho, 111 - 16° andar - CEP: 01050-904 - Centro - São Paulo / SP
11 - 3201-2300