O que vale mais no currículo

Todo
profissional já sabe que é importante mergulhar nos estudos e se manter
atualizado para prosperar na carreira, em uma sociedade de advogados ou
no departamento jurídico de uma grande empresa. ANÁLISE ADVOCACIA
consultou 22 dos maiores escritórios do Brasil a fim de descobrir quais
são os cursos mais valorizados, o que as firmas realmente esperam ver
no currículo de um advogado e que tipo de conhecimento é desejado em
cada etapa da carreira. Os profissionais consultados estão entre alguns
dos principais recrutadores de talentos jurídicos, uma boa razão para
ouvir o que eles têm a dizer. O nome dos entrevistados está relacionado
no final desta reportagem.
Os quadros que ilustram esta reportagem
indicam os nomes de instituições de ensino no Brasil e no exterior. As
listas foram montadas com base na indicação dos entrevistados,
extraídas de relatórios oficiais do governo e no ranking da publicação
americana US News (ranking de LL.M. dos Estados Unidos). A reportagem
também indica uma “receita” de estudo continuado da faculdade até o
posto mais alto em uma firma de advogados. Também foi construída com
base nas sugestões dos entrevistados.
Um setor em expansão
– As respostas confirmam que um bom currículo acadêmico é fundamental
na avaliação dos profissionais mais experientes. Em direito, é senso
comum dizer que o conhecimento é o principal caminho para progredir na
carreira e que a educação continuada é uma exigência, mesmo para quem
já ocupa a posição de sócio em um grande escritório. A cada passo, o
advogado precisa ampliar seu repertório teórico. Além do direito, é
preciso dominar áreas como economia, finanças. Em uma outra etapa,
gestão de pessoas, liderança e negociação passam a ser habilidades
requeridas. Também ficou claro que a especialização é uma tendência
irreversível nesse mercado. Ou seja, ao mesmo tempo em que se precisa
ser multidisciplinar, o profissional precisa aprofundar bastante seus
conhecimentos em uma área específica.
Uma das revelações que mais chamam a atenção no
levantamento é a valorização dos cursos de mestrados e doutorados
acadêmicos (stricto sensu) pelos grandes escritórios. Outro dado,
diretamente relacionado ao primeiro, é a multiplicação de brasileiros
com LL.M. (Master of Laws) nos Estados Unidos. De acordo com alguns
profissionais consultados ter LL.M. é importante, mas não tem o peso
que tinha há alguns anos. Verificou-se, também, que há uma demanda
enorme por bons cursos na área. O setor de ensino vive uma fase de
grande expansão nessa área. Apenas no ano passado, a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), recebeu 53 novos
pedidos de reconhecimento de cursos de mestrado e doutorado em direito.
O número é quase igual ao total de cursos reconhecidos pela coordenação
na área (64). E com um detalhe: dos 64 cursos reconhecidos, apenas três
recebem um atestado de excelência – USP, UFPR e UFSC, e 12 têm alto
desempenho.
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Confira também
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LL.M.
no Brasil - Até dez anos atrás, mestrados acadêmicos (stricto sensu),
eram as únicas opções no Brasil. E como não ofereciam o que o mercado
necessitava, quem atuava na área de negócios tinha que buscar um curso
no exterior, mais especificamente nos Estados Unidos. Agora, há boas
opções por aqui, e o crescimento no número de cursos, e de alunos, é
impressionante. O primeiro LL.M. do Ibmec-SP, criado em 1999,
multiplicou-se em quatro cursos – mercado financeiro, societário,
tributário e contratos, cada um com 45 vagas. No processo seletivo mais
recente, as 45 vagas no direito societário foram disputadas por mais de
mil candidatos. |
LL.M. no Brasil
- Até dez anos atrás, mestrados acadêmicos (stricto sensu), eram as
únicas opções no Brasil. E como não ofereciam o que o mercado
necessitava, quem atuava na área de negócios tinha que buscar um curso
no exterior, mais especificamente nos Estados Unidos. Agora, há boas
opções por aqui, e o crescimento no número de cursos, e de alunos, é
impressionante. O primeiro LL.M. do Ibmec-SP, criado em 1999,
multiplicou-se em quatro cursos – mercado financeiro, societário,
tributário e contratos, cada um com 45 vagas. No processo seletivo mais
recente, as 45 vagas no direito societário foram disputadas por mais de
mil candidatos.
“O mercado jurídico ficou muito mais sofisticado e
isso aumentou a demanda por excelência acadêmica”, diz o coordenador do
Centro de Estudos em Direito do Ibmec-SP, Jairo Saddi, doutor em
Direito Econômico pela USP com pós-doutorado em Oxford. A maioria dos
alunos trabalha em departamentos jurídicos de bancos ou em sociedades
de advogados – 80% contam com subsídio. Segundo Jairo, o investimento
de tempo e dinheiro tem retorno quase certo. “Após o curso, dois terços
dos nossos alunos são promovidos ou mudam para um cargo melhor em outra
empresa.” Um quinto curso, na área ambiental, é o próximo passo.
Dupla graduação
- Fundada há apenas três anos, a faculdade de Direito GV rapidamente se
transformou em referência. O departamento conhecido como GVlaw oferece
atualmente mais de 50 cursos de especialização nas mais diversas áreas.
Também explora o nicho dos cursos customizados (in company), com
atuação em departamentos jurídicos de bancos como Itaú e Santander, e
em escritórios como Pinheiro Neto e Machado, Meyer, Sendacz Opice.
Neste ano, a GV iniciou seu primeiro mestrado (stricto sensu), voltado
para áreas como governança, reforma do estado e desenvolvimento
econômico e social.

Outra
iniciativa recente é a dupla graduação, que permite a alguns alunos
selecionados obterem os diplomas em administração e direito em sete
anos (o normal são cinco anos em cada curso). “Para dialogar com os
clientes, o advogado tem de conhecer a linguagem do mundo corporativo,
saber ler um balanço”, diz Oscar Vilhena, mestre em Columbia,
pós-doutorado em Oxford, e coordenador do Mestrado da Direito GV. “Mas
para estar entre os melhores, é preciso mais: direito internacional,
gestão, estratégia. E, principalmente, estudar profundamente a teoria
jurídica.” Daí a importância da atualização contínua. Mesmo com 30 anos
de carreira, mestrado e doutorado, o profissional pode enriquecer seu
currículo em áreas específicas como direito regulatório, propriedade
intelectual, arbitragem.
O lugar do mestrados e doutorados acadêmicos -
Alguns grandes escritórios passaram a valorizar mais os cursos
acadêmicos de mestrado e doutorado (stricto sensu). Em alguns deles,
mestrados e doutorados em universidades brasileiras de ponta valem
tanto (ou mais) quanto um LL.M. nos Estados Unidos na avaliação de um
candidato ou na hora de uma promoção. Essa mudança decorre de dois
fatores. Em primeiro lugar, os escritórios reconhecem o esforço do
profissional que se aprofunda nos fundamentos do direito e produz uma
tese, o que implica fazer pesquisa e ser obrigado a inovar. O segundo
fator é a percepção de que, só quem domina o repertório da dogmática
jurídica é capaz de encontrar soluções para casos mais complexos e
novos problemas.
É claro que um LL.M. em universidade de primeira
linha nos Estados Unidos continua a ser uma bela medalha no peito. A
novidade é que ele está deixando de ser uma vantagem competitiva para
ser quase uma exigência para quem atua na área de negócios. Explica Ary
Oswaldo Mattos Filho, sócio de uma das principais bancas do Brasil e
diretor da Direito GV. “Quando fiz o meu em Harvard, em 1968, me sentia
como um marciano. Ninguém sabia o que era isso no Brasil. Agora muita
gente tem, então já não faz tanta diferença.” Estima-se que existam
atualmente 200 brasileiros cursando LL.M. nos Estados Unidos. É muita
gente, o que significa uma concorrência cada vez maior.
“Na área empresarial, o Master in Laws em uma
universidade nos Estados Unidos é quase uma obrigação. Quem não tem,
precisa explicar por quê”, diz Alexandre Bertoldi, sócio administrador
do Pinheiro Neto. “Ao mesmo tempo, nos últimos anos, os mestrados
acadêmicos passaram a ser mais valorizados. Hoje, aqui no escritório,
um mestrado stricto sensu na USP ou na PUC tem tanto peso quanto um
LL.M. nos Estados Unidos.” Note-se que a valorização dos cursos stricto
sensu ainda é um fenômeno recente. Na maior parte dos escritórios,
ainda é visto como de pouca utilidade prática.
“Os escritórios não valorizam o mestrado e o
doutorado. Você investe muito tempo e dedicação e tem pouco retorno”,
diz Eduardo Borges, sócio do Ulhôa, Canto. “Já o LL.M. traz um ganho
imediato.” Paradoxalmente, depois de um curso na Universidade de
Leiden, na Holanda, um dos mais bem conceituados na área tributária,
Borges fez um mestrado. Na USP. No mercado jurídico atual, para se
diferenciar de verdade, dizem os escritórios, é preciso um conjunto de
habilidades e competências maior: um mestrado acadêmico, estágio em
escritório no exterior, outra graduação, uma boa especialização em
administração de empresas, economia ou ciências contábeis. Cursos em
novas áreas, como tecnologia, entretenimento, ambiental.
Formação continuada - Com diferentes nomes, todas
as grandes bancas possuem comissões que cuidam da formação contínua dos
profissionais. Em um dos escritórios de maior sucesso no país, há uma
pontuação para cada tipo de curso no programa de desenvolvimento de
carreira. Doutorado ou mestrado (stricto sensu) aparecem em primeiro
lugar na escala de valores. Aqui, novamente, premia-se o esforço e a
vontade de enfrentar novos desafios de quem se arrisca a fazer um curso
desses. Programas de LL.M. vêm em segundo lugar e, em terceiro,
especializações. Cursos no Brasil pesam um pouco menos. Vale lembrar
que, para a legislação brasileira, o LL.M. nos Estados Unidos não passa
de uma especialização, muito embora lá o título seja de mestre (Master
of Laws). Mas o que importa é que no mundo real dos escritórios e
empresas é uma credencial bastante valorizada e, normalmente, é
acompanhada por uma promoção.

Além
do inglês, obrigatório, o domínio de uma segunda língua é desejado. Com
o Mercosul e o grande volume de investimentos espanhóis no Brasil, o
idioma é o mais citado pelos escritórios. Alemão, francês e italiano
ainda são apreciados. Afinal, conhecimento nunca é demais. Mas estão em
baixa. Escolher diante de tanta oferta e diversidade é um desafio.
Aqui, vale a velha máxima: escolha algo de que você goste e procure o
curso reconhecido como o melhor na área. E tenha foco, porque a
especialização é uma tendência que veio definitivamente para ficar.
“É preciso se informar bem. Yale e Stanford, por
exemplo, têm um perfil mais acadêmico. Nova York, Columbia e
Pensilvânia são mais voltados para o lado profissional”, diz Bárbara
Rosemberg, sócia do Barbo a Müssnich & Aragão e, aos 33 anos, um
dos principais nomes do mercado em direito da concorrência. No
currículo, ela ostenta um LL.M. pela Universidade de Berkeley, na
Califórnia, e um doutorado em Direito Econômico Financeiro na USP.
Acrescente-se a isso uma experiência internacional no Cleary, Gottlieb,
Steen & Hamilton, em Nova York, e uma passagem pela Secretaria de
Direito Econômico (SDE), para se ter uma profissional realmente
diferenciada. “Gosto de estudar. E nunca limitei esforços para
aprimorar minha formação.” Hoje, ela se atualiza dando aulas na GV
Direito e participando de seminários internacionais em sua área de
atuação.
Tão importante quanto estudar é saber a hora certa
de cada curso. Um erro bastante comum hoje em dia é fazer o LL.M. logo
após a graduação, antes de possuir alguma experiência profissional. “É
jogar dinheiro fora”, diz Hércules Celescueki, sócio do Trench, Rossi,
Watanabe, mestre pela Universidade de Illinois. “É importante não
perder o foco na prática. O mais aconselhável é trabalhar pelo menos
dois anos num grande escritório, eleger uma área de atuação e aí, sim,
partir para o curso no exterior. E tentar combinar o curso com uma
experiência em um grande escritório norte-americano. Isso vale tanto
quanto o LL.M.”
Foco - Mas o principal conselho dos profissionais
ouvidos por Análise é não desperdiçar dinheiro, tempo e energia com
cursos que não vão acrescentar muito. “O ideal é manter o foco na área
em que se pretende atuar até atingir um nível de especialização
suficiente”, diz Eloah Elisa Guiblin Teixeira, advogada e integrante do
Comitê de Qualidade Profissional do Machado, Meyer (MMSO). E, vale
repetir: especializações, mestrados, doutorados, não importa. Procure
uma instituição reconhecidamente de primeira linha e se informe
bastante antes, para ter realmente certeza de que é o que você procura.
Os seguintes profissionais e escritórios foram entrevistados para a produção desta reportagem:
Alexandre Bertoldi (Pinheiro Neto Advogados), Ary Oswaldo Mattos Filho
(Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga); Bárbara Rosenberg
(Barbosa, Müssnich & Aragão); Caio Mário da Silva Pereira Neto
(Leoni Siqueira Advogados); Claudia Prado (Trench, Rossi e Watanabe);
Durval de Noronha Goyos (Noronha Advogados); Eduardo Borges (Ulhôa
Canto, Rezende e Guerra Advogados); Eloah Elisa Guiblin Teixeira
(Machado, Meyer, Sendacz e Opice); Flávio Meyer (Machado, Meyer,
Sendacz e Opice); Hércules Celescueki (Trench, Rossi e Watanabe);
Ilídio Benites de Oliveira Alves (Oliveira Alves Advogados); Jairo
Saddi (Ibmec-SP); João Paulo Fagundes (Rayes, Fagundes e Oliveira Ramos
Advogados); José Luiz Homem de Mello (Pinheiro Neto Advogados); Leandro
Pereira (GV Law); Luciana Gross Cunha (GVLaw), Marielza Wickert
(Departamento Jurídico do Santander), Oscar Vilhena (GVLaw); Suely
Fernandes (Trench, Rossi e Watanabe); Advocacia Celso Botelho de
Moraes; Barbosa, Müssnich & Aragão, Demarest e Almeida Advogados;
Diamantino Advogados; Fialdini, Guillon Advogados; Gouveia, Vieira;
Leite Tosto e Barros; Machado, Meyer, Sendacz e Opice; Martinelli
Advocacia Empresarial; Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga;
Mesquita Pereira, Marcelino, Almeida, Esteves Advogados; Noronha
Advogados; Pinheiro Neto Advogados; Rayes, Fagundes e Oliveira Ramos
Advogados; Rechulski e Ferraro; Souza, Cescon Avedissian, Barrieu e
Flesch; Teixeira, Martins & Advogados; TozziniFreire Advogados;
Trench, Rossi e Watanabe; Ulhôa Canto, Rezende e Guerra Advogados; Wald
e Associados Advogados.